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Consuelo, Nosso Sol

Por / 0 Comentários / 22 maio, 2015

Fernanda De Sena Arandas*

Para nós, descendentes diretos de Consuelo, é chegado o momento de arrumarmos novamente nossas órbitas, como planetas que giravam em torno de tão brilhante e luminoso sol. Impossível ser criado em seu colo, banhado por seu sorriso de amor, acarinhado por suas mãos macias e acalentado pelo canto de sua voz tão forte e firme e ficar imune ao sentimento infantil de que aquela mulher tivesse algo de sobrenatural, fosse um ser poderoso e capaz de nos proteger de tudo, e nos doar um pouco de sua luz, nos tornando especiais por descender de estrela tão luminosa.

Lembrar de minha avó é imediatamente recordar um beijo em minha face, imortalizado por uma foto na fazenda, em seu colo, com menos de dois anos, capaz de transmitir todo o amor de uma avó por sua netinha. É lembrar-se da mulher mais linda do mundo, a mais elegante, com porte de rainha, cabelo chanel vermelho, que me dava a mão e me guiava pelas ruas, me sentindo com ares de princesa ao lado de tão nobre rainha.

É recordar as viagens para a Fazenda Triunfo, quando ela colocava seus grandes óculos escuros e o lenço no cabelo, e voávamos no opala de meu avô, com o vento batendo em nossos rostos, felizes por antever um maravilhoso fim de semana junto à natureza. Aquela nobre dama costumava nos levar à feira da cidade, onde transitava em meio àquela gente simples, comunicando-se com eles com a grande cumplicidade dos conhecedores e admiradores dos costumes do povo. Ela se maravilhava em conversar com aquela gente, com curiosidade de investigadora, para quem tudo é matéria de vida para seu enorme acervo e bagagem de escritora.

A professora e jornalista Consuelo Pondé de Sena faleceu no dia 14 de maio, em Salvador - Foto: Reprodução

A professora e jornalista Consuelo Pondé de Sena faleceu no dia 14 de maio, em Salvador – Foto: Reprodução

Outra feliz recordação de infância: as idas ao aeroporto para levar meus avôs em suas viagens. Era delicioso vê-los subindo aquelas escadas do avião, nos acenando e partindo felizes rumo a lugares maravilhosos, nem mesmo imaginados por mim. Melhor ainda era buscá-los, pois além da saudade e da vontade de abraçá-los e ouvir suas histórias, chegava ainda uma enorme mala de presentes, a maioria dos quais endereçados a mim, sua única netinha na época.

Um sonho meu realizado por minha avó: minha primeira viagem de avião, aos onze anos de idade, rumo à casa de parentes em São Paulo, acompanhada por ela e minha tia Luíza. Além do avião em si, pude conhecer uma nova faceta de minha avó: ela era uma companheira de viagem fantástica, sempre disposta, alegre, capaz de resolver qualquer contratempo com bom humor e de uma maleabilidade tão grande, que a fazia me levar diversas vezes para almoçar um sanduíche, por economia de viagem, ou viajar de ônibus de São Paulo a Mato Grosso do Sul, rumo à casa de outros familiares, na ida e volta a São Paulo, com a alegria de uma estudante, nada preocupada com o desconforto da empreitada. Além das aventuras, tínhamos uma guia alegre, que conhecia todos os pontos históricos, e nos agraciava com suas aulas sobre tudo de cultural que pudesse haver naquelas cidades.

Meus avôs sempre foram um grande estímulo à busca intelectual para todos da família. Crescíamos rodeados por livros da sua imensa biblioteca. Víamos os dois compenetrados, cada qual lendo ou escrevendo seus artigos, por diversas horas, sentados à mesa, como quem estivesse em outro mundo. Lembro-me de haver sentado por uma vez no sofá, muito antes de conhecer as primeiras letras, segurando um livro e imitando a pose de minha avó, como se uma imensa platéia pudesse me ver e acreditar que eu estava fazendo exatamente a mesma coisa que eles. Fui por diversas vezes com meus avós a cerimônias oficiais e assisti, orgulhosa, a seus discursos, pouco entendendo o seu significado, mas antevendo sua importância pelo olhar atento e respeitoso dos espectadores.

Gostava de passear com minha avó a seu trabalho, no Arquivo Público, no Centro de Estudos Baianos, e em outros lugares, onde sempre era mimada por seus funcionários, que transferiam a mim o carinho e o cuidado que tinham com minha avó. Naqueles lugares cheios de coisas antigas, podia dar asas à imaginação e brincar do que quisesse, sem precisar de brinquedos ou mesmo de outras crianças para me divertir.

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Impossível também se lembrar de minha avó sem recordar as inúmeras festas que ela dava em sua casa, quando recebia seus convidados com a alegria e a fineza de grande anfitriã. Aqueles jantares eram esperados por mim com grande ansiedade, pois além da animação transbordante na casa, podíamos ainda nos deliciar com as deliciosas comidas que Maria, sua fiel ajudante, fazia primorosamente com a intenção de agradar à minha avó e encantar a todos. A comida da casa da minha avó sempre foi a melhor do mundo. Foi assim que aprendi o pouco que sei sobre a arte de receber convidados, mas confesso que apesar da generosidade com que minha avó ensinava tudo o que sabia, não poderia copiar sua graça e seu encanto, que sempre tornaram sua casa o lugar para os eventos mais agradáveis e esperados por todos.

Encantadores também eram nossos almoços em família aos domingos, quando meus avôs sentavam ao sofá, rodeados pelos filhos e algum convidado, e nos contavam histórias, muitas vezes hilariantes, pois aquele casal tinha um fino humor ácido, que magnetizava a todos, além de um acervo inacabável de histórias de suas vidas e de outrem, além da capacidade de transformar fatos corriqueiros do dia a dia em conversas das mais interessantes e alegres. A afinidade dos dois era tão grande, e a cumplicidade e admiração mútua tão verdadeira, que aquele foi pra mim o grande exemplo de casal e de família que até hoje tento copiar. Nos meus desejos de moça, aquele foi o casal de contos de fadas dos meus sonhos.

A doença de minha avó foi uma chamada à realidade. Um evento marcante em nossas vidas. Foi a primeira vez que precisamos cuidar de quem sempre nos protegeu; uma sensação de vulnerabilidade sem fim, pois se aquela magnífica mulher podia ser tão frágil, o que seria de nós, seus filhos e admiradores? Vimos atordoados àquela fortaleza de mulher ter suas forças minadas por doença tão atroz. Mas no fundo sempre havia uma esperança, pois nos nossos sonhos infantis, nada poderia realmente vencê-la. É por isso que a morte de minha avó teve pra mim o sabor de fim da infância, pois essa não é marcada por determinada idade, e sim pelo fim de nossas mais tenras fantasias.

Como mulher generosa que sempre foi, na lista de seus últimos pedidos, que ela solicitou que minha mãe anotasse nos seus derradeiros dias, além daqueles referentes à preocupação em deixar protegidos todos os seus entes queridos, não se esquecendo de Maria, sua fiel ajudante, que cuidou dela junto conosco com desvelo de filha, chegou para mim mais um presente: ela queria que organizássemos um álbum com suas fotos mais significativas. Com a rapidez da evolução da sua doença, não pudemos mostrar a ela o resultado maravilhoso daquela retrospectiva no tempo. Fotos esplendorosas de sua juventude até os dias atuais nos fizeram recordar aquela diva em seus diversos momentos, e sentir novamente aquele sabor da imortalidade de nossos sonhos, que podem ser abalados por fatos inerentes à vida, mas no fundo da nossa alma estarão sempre ali, nos tornando as crianças que sempre fomos e mostrando que a nossa felicidade não pode ser tirada nem mesmo pela separação involuntária, pois dentro de nós ela estará sempre presente e nos marcará por toda a nossa jornada, até o dia do nosso reencontro.

*Fernanda de Sena Arandas, médica endocrinologista, neta da professora Consuelo Pondé de Sena. Texto originalmente publicado pelo jornal Tribuna da Bahia do dia 20/05/2015.


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