CHECAGEM

Apuração basta? Saiba o que dizem pesquisadores e editores de veículos baianos sobre as notícias falsificadas

Por Pedro Vilas Boas

No combate às fake news é necessário pensar fora da caixa. E é justamente isso o que não tem sido feito pela imprensa baiana. Pelo menos, é o que acredita o jornalista Wilson Gomes, professor titular da Faculdade de Comunicação e do programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Para o estudioso, que também é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), uma rede de laboratórios que envolve instituições e pesquisadores na área de democracia e tecnologias digitais, a cobertura política na Bahia resume-se a Câmara dos Vereadores e Assembleia Legislativa. “O sujeito deve ter algumas fontes inseridas no sistema político, e lida com isso. Então, basicamente, a pauta local é essa; não tem muita coisa. Mas outros fatos que saem desse percurso, das fontes oficiais, o jornalismo tem grandes dificuldades em lidar”, afirma Wilson Gomes.

Wilson Gomes aponta que “tsunami das fake news tornaram os jornais ainda mais irrelevantes” – Foto: Francisco Artur

O especialista afirma que o problema não está no esforço feito durante a produção das reportagens, mas, sim, na mentalidade coletiva das redações. “No caso da desinformação, ela não fazia parte dos canais oficiais. É simplesmente uma questão de prática profissional. E levou um caldo disso; tsunami das fake news tornaram os jornais ainda mais irrelevantes. E ao não lidar com fake news distribuídas sobretudo no Whatsapp, o jornal provocou sua própria irrelevância. Só consegue lidar com fontes oficiais”, explica.

Apuração é o remédio

Diretora de redação do maior jornal Norte-Nordeste, o Correio, Linda Bezerra não acha necessária a criação de programas de combate às fake news, como é feito nas redações de outros grandes veículos de comunicação do país. “Eu sei que quando uma coisa tá muito absurda é preciso criar um remédio pra curar a dor, mas o remédio pra esse problema chama-se apuração. Aqui a gente tem o entendimento que nenhuma notícia pode ir ao ar sem ser checada. Sei que o digital nos força a ser mais ágeis, dar na frente as coisas, mas aqui há esse cuidado”, garante a jornalista.

Linda Bezerra – Foto: Francisco Artur

Para além do cuidado no que é divulgado pelo jornalismo profissional, Linda acredita que contribui para o senso crítico de seus leitores quando o Correio publica matérias que discutem as fake news. “Temos feito reportagens para discutir o que é fake news e o que elas provocam. Acho que temos que alertar criando conteúdo e mostrando como elas existem”, explicou.

O jornalista Evilásio Júnior ainda atuava como chefe de redação do grupo Metrópole quando foi entrevistado pela reportagem, em outubro deste ano. Em comparação à Linda Bezerra, ele é mais radical quando a pauta é fake news. Para Evilásio, o impacto desse tipo de conteúdo é superestimado. “Por que vou dar voz a uma notícia falsa? [sobre publicar desmentido]; aqui não vai ter. Mais uma prova de que aquela notícia não é real; não tenho que combater fake news tentando desmentir. Combato fake news apurando, vendo que não tem veracidade e ignorando”, defende. Ele completa dizendo que a disseminação de fake news não deve mudar o procedimento normal de uma redação. “É claro que em uma época de fake news, que isso tá muito exacerbado, tem que ter um cuidado maior, mas nada que fuja da pauta”, conclui.

Noticiar verdades ou desmentir boatos?

Apesar da deficiência dos jornais locais em combater fake news, Wilson Gomes reconhece que é muito material mentiroso para os veículos de comunicação darem conta. Segundo ele, esses jornais devem, ao menos, noticiar os conteúdos que tenham mais repercussão.”Nosso jornalismo, nossas redações não são muito grandes. Acho que alguns jornais fizeram alguma intervenção baseada na pauta que era mais proeminente. Um caso como esse teria obrigação de produzir material, porque, de fato, tem impacto maior e foi constantemente replicado”, explica o especialista, citando como exemplo um áudio que circulou nos grupos de Whatsapp que afirmava que o governador do estado, Rui Costa (PT), proibiu os militares da Bahia de votarem.

Para Linda Bezerra, os jornais devem escolher entre noticiar verdades, ou desmentir boatos. “As redações já estão muito enxutas. Temos um trabalho a ser feito, que é noticiar; esse é o nosso trabalho. Se formos nos dedicar a desmentir notícias falsas, que existem, que circulam, talvez não demos conta, porque é muita notícia falsa”, desabafa.

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A diretora de redação do Correio afirma que o jornal desmente boatos a partir de notas oficiais emitidas por uma instituição envolvida na mentira, por exemplo. “Ou você cria uma editoria pra desmentir notícias falsas – é um caminho, alguns jornais fazem isso -, ou você se dedica a dar notícias”, comenta.

Wilson Gomes afirma que as fake news também são fatos e devem ser noticiadas, independentemente da emissão de um posicionamento oficial de alguma entidade. “Os jornais lidam com fatos. Se há um boato circulando e é relevante, o jornal tem que lidar com isso. Fake news também são fatos. O desmentido que é o fato? O fato são as fake news”, pontua o especialista.

O Grupo Globo lançou em julho do ano passado o projeto “Fato ou Fake”. A ideia é alertar os seguidores dos veículos do conglomerado de mídia sobre conteúdos duvidosos disseminados na internet ou pelo celular, esclarecendo o que é notícia (fato) e o que é falso (fake). Integram o grupo equipes de G1, O Globo, Extra, Época, Valor, CBN, GloboNews e TV Globo.

Democracia abalada

O professor Wilson Gomes explica que as fake news prejudicam o ambiente democrático durante eleições. Segundo o especialista, uma eleição baseada em desinformação é um pleito bastante prejudicado.”Há um presuposto de que as pessoas têm que ter as melhores informações possíveis, qualificadas, para tomar as melhores decisões, serenas, bem justificadas, livres. Se você tem um ambiente em que a mentira corre solta, a parcialidade…obviamente, não há ganho pra democracia com isso”, esclarece.

O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), tece duras críticas à imprensa desde o início da campanha. Para Wilson Gomes, não há novidade no discurso do novo chefe do executivo federal. O jornalismo deve continuar a fazer seu trabalho, como em outros governos. “Lula não gostava de jornalismo, Dilma não gostava de jornalismo. Não há nada de especial no que Bolsonaro está dizendo. O jornalismo não é pra agradar governos, não é também pra perseguir governos, mas é pra lidar com governos, conforme interesse da cidadania. O interessante não está em servir o governo, mas apresentar pontos de vista, denunciar, investigar, isso o jornalismo vai fazer sempre”.

Wilson gomes conclui afirmando que o jornalismo sai bem menor do que entrou há 5 anos, quando, segundo analistas, a crise política teve início. “Foi frequentemente parcializada, pouco sofisticada, embarcou facilmente em ondas de opinião, ao invés de desafiar, oferecer opções alternativas. O jornalismo se entregou muito fácil nessa sana pra limar ou derrubar presidente. O jornalismo sai muito menor do que entrou. O jornalismo deve oferecer complexidade onde querem simplicidade, sofisticação de pontos de vista onde querem simplificação. Esse é o jornalismo que precisamos”, ressalta.

  • Confira entrevista exclusiva com o pesquisador Wilson Gomes:

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Série completa

Parte 1 – VÍTIMA DA MENTIRA: De trabalhador a criminoso. O impacto das fake news

Parte 2 – CURA MILAGROSA: Tratamentos alternativos podem trazer consequências graves

Parte 3 – A LEI: Justiça Eleitoral em guerra indefinida contra as fake news

Parte 4 – CHECAGEM: Apuração basta? Saiba o que dizem pesquisadores e editores de veículos baianos

Parte 5 – RASTILHO DE PÓLVORA: Educação para mídia online

*Este texto é parte do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)/2018 apresentado ao Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge) pelos alunos Francisco Artur Filho, Lívia Oliveira, Pedro Vilas Boas e Roberto Aguiar.