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Estudantes da Uneb escrevem livreto para empoderar crianças negras

Quantos personagens negros que foram importantes para o nosso país você conhece? Você já ouviu falar em Dragão do Mar ou sabia que Machado de Assis era negro? Para responder a estas perguntas e fazer com que crianças negras se sintam representadas, Gabriela Muriel, Karine Menezes, Maria Carla e Suelem Diniz, estudantes de Comunicação Social/Relações Públicas da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) escreveram um livreto que resgata histórias desses personagens, normalmente esquecidos.

“A proposta deste livro é expor algumas dessas histórias, apresentado os grandes heróis e heroínas negros que foram exluídos da memória coletiva. Buscamos trazer à tona ilustres personagens que são importantes, mas que foram deixados de lado por conta do racismo”, diz o texto de apresentação de “Histórias que a História não conta”. Em entrevista concedida a Benedita Almeida, estudante de Relações Públicas da UNEB, as autoras revelam o processo de produção da obra.

O livro surgiu a partir de uma atividade proposta por um professor da instituição, o projeto “Afrofuturismo”. Segundo Karine Menezes, produzir um livreto foi uma ideia sugerida pela colega Suelem. “Foi uma escolha perfeita justamente pela temática que nós tratamos e o objetivo que temos de expor o conteúdo de forma mais atraente para o nosso público-alvo, que são os jovens”, explica a estudante.

Suelem, Gabriela e Karine – Foto: Reprodução

“Tinha assistido ao desfile da Mangueira no início do ano e fiquei encantada e também horrorizada com o fato de a gente não estudar aqueles personagens que são tão importantes. Mas aquilo ficou no meu subconsciente”, disse Suelem. “Certa vez, eu estava conversando com minha mãe sobre o quanto Machado de Assis era importante e era negro. Ela ficou surpresa: ‘Pera, ele era negro?’. Ela tem 60 anos, havia estudado Machado na escola e ela não sabia que ele era negro”, conta. Foi aí que ela teve a ideia de fazer o livreto e as amigas embarcaram na aventura. “Acreditamos que, se a nossa sociedade está assim, a gente tem que mudar ela pela base. E qual é a base, se não as crianças?”, questiona.

Maria Clara – Foto: Reprodução

A escolha dos personagens aconteceu em colaboração entre as autoras. Cada uma teve um tempo para pesquisar sobre alguns heróis que se destacaram na história do Brasil. “Não queríamos colocar o negro apenas como força física ou como escravizado. Inserimos intelectuais, como André Rebouças e Antonieta de Barros, para mostrar essa força que os negros têm também”, observa Suelem. De acordo com ela, a escolha majoritária por mulheres se deu “porque as mulheres têm menos visibilidade ainda do que os homens. E quando a gente fala de resistência negra dos nossos antepassados, na formulação do Brasil, a gente pensa muito em Zumbi, mal sabemos que quem coordenava mesmo era Dandara”, justifica.

Desafios

Por enquanto, o livreto está disponível apenas no formato digital. Entre as principais dificuldades, as autoras citam a estrutura da faculdade e a falta de financiamento. “A gente teve a dificuldade porque estamos aprendendo a trabalhar com os programas, nós mal tínhamos acesso a esses programas na própria faculdade, pois falta um laboratório atualizado”, revela Gabriela Muriel. “Fomos orientadas pelo professor e fazendo por nossa conta”, diz.

Outro problema, segundo elas, foi a falta de documentos sobre alguns personagens. “Muitas histórias são contadas oralmente e não têm registros. Aqualtune, por exemplo, a gente sabe o período basicamente que ela viveu, mas não temos total certeza e tem muitos poucos artigos, escassos livros. Tivemos que nos debruçar sobre uma pesquisa grande e, no final, a gente separou cinco personagens que acreditamos ter um pouco mais de conteúdo para tratarmos e os que tocaram mais o nosso coração mesmo”, explica Suelem. “A pesquisa sobre esses personagens ensina muito, principalmente sobre resistência e não conformidade. Apesar de viverem em uma época onde o racismo era praticado sem nenhum pudor, eles atuaram para quebrar o padrão”, completa Maria Clara. Agora, elas querem contar novas histórias, em outros formatos, e disponibilizar o livro físico.

Confira a entrevista no site Leiamais.ba.

O livro está disponível neste link.

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