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Evento na FACOM analisa relações entre jornalismo e fake news

Os desafios do jornalismo para o futuro, frente à crise que avança sobre o setor, e o papel das falsas notícias como arma política nas eleições de 2018 foram abordados

Palavras-chave como desintermediação, política e fake news deram o tom da roda de discussão ocorrida na manhã de sexta-feira (21), na Faculdade de Comunicação (Facom) da UFBA. O debate mediado pela diretora da unidade, Suzana Barbosa, reuniu o professor Wilson Gomes, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD) e o jornalista Bob Fernandes. Entre as temáticas que movimentaram a participação do auditório lotado, estiveram os desafios do jornalismo para o futuro, frente à crise que avança sobre o setor, e o papel das falsas notícias como arma política nas eleições de 2018.

O pesquisador Wilson Gomes comentou que desde os anos de 1960 havia um crescente desinteresse pela política, situação que mudou radicalmente a partir de 2013. Para explicar o cenário de retomada desse interesse e polarização política exacerbados no pleito eleitoral de 2018, Gomes utilizou a metáfora do esporte. “O brasileiro estava preparado para disputar futebol, agora ele é um torcedor político, ele absorve a mesma atitude de torcedor para a política e se comporta do mesmo jeito. Um time azul, um time vermelho, escolho qual a cor que eu vou jogar”, avalia. A disseminação de informações falsas, segundo o professor, funciona para reforçar o ponto de vista dos adversários, independentemente da veracidade.

Foto: Fernando Franco/ABI

Para ilustrar o estado de espírito que mobilizou os militantes dos partidos de direita e esquerda no WhatsApp, o coordenador do INCT.DD comparou com uma guerra. “Ganhar é mais importante do que qualquer coisa, o interesse pela verdade, por fatos, tudo isso é secundário, o importante é a afirmação do meu ponto de vista. É uma luta por vontade de potência, de poder. E as fake news, nesse sentido, são uma arma conveniente”. Ele acredita ainda que o engajamento político foi comprometido pela falta da razoabilidade das argumentações. “As pessoas estão participando muito intensamente de política, elas passaram a se ocupar desesperadamente, enlouquecidamente com política, como vimos agora em 2018”.

Ainda ao refletir sobre os acontecimentos das eleições deste ano, em que a disseminação de falsas notícias encontrou no mensageiro WhatsApp seu principal manancial, Wilson Gomes afirmou que atualmente “o jogo político se joga em outras arenas. Arenas digitais”. Na avaliação dele, os partidos de direita souberam utilizar as ferramentas digitais de comunicação com mais eficácia que seus opositores, denominando o fenômeno mundial de “Direita 2.0”.

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Com ascensão dos governos de direita, outro fenômeno, a desintermediação, tomou forma e os políticos passaram a falar diretamente nos canais de comunicação, como o Twitter, dispensando o papel de porta-voz das assessorias de imprensa. Gomes lembra que esse comportamento iniciado por Trump, nos Estados Unidos, tem sido reproduzido pelo presidente eleito no Brasil, Jair Bolsonaro. “A fakenização do adversário ou da imprensa é uma forma de desqualificá-los, pois, nesse contexto, a fake news é a news que não me beneficia, que desafia minha posição. Bolsonaro também passou a adotar a mesma coisa, tudo ‘é fake news’”, explica Gomes.

Ele acredita que o trabalho das agências de checagem é de grande relevância no “momento em que mais se precisa de jornalismo”, contudo, elas não têm condições de dar conta do volume e velocidade com que as fake news são produzidas e disseminadas. Wilson Gomes explica que a viralização das fake news se justifica pela busca dos leitores por conteúdos que reforcem seus pontos de vista, em detrimento do jornalismo como fonte de informação válida. “Não é fácil produzir jornalismo num momento em que as pessoas parecem não preferir uma informação do tipo X, de melhor qualidade, do que uma informação do tipo Y, que sirva para reforçar meu ponto de vista”, comentou.

Diante da crise que afeta o atual modelo da indústria da notícia, o jornalista Bob Fernandes defende uma “regulação capitalista dos meios de comunicação”, capaz de reverter a concentração dos meios de comunicação nas mãos de políticos, entidades religiosas e das elites. O jornalista também acredita que o caminho para o enfrentamento do fenômeno das fake news esteja na educação. Regulação da mídia e educação comporiam, na opinião de Bob, os “anticorpos” ou “antivírus” capazes de refrear o fenômeno que desencadeou a crise no jornalismo.

*Texto de Fernando Franco, sob a supervisão de Joseanne Guedes


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