Notícias

Jornalistas discutem a atuação do negro na imprensa baiana

Estudantes do curso de Jornalismo da Faculdade 2 de Julho (F2J) resolveram driblar a escassa representatividade negra nas atrações jornalísticas das grandes emissoras. Na noite desta segunda (20), eles montaram uma “bancada” com comunicadores pretos, para discutir a atuação de profissionais negros na imprensa baiana. Falando para uma plateia majoritariamente negra, os jornalistas Tarsilla Alvarindo, Tiago Reis e Vanderson Nascimento abordaram questões raciais, a partir de suas experiências acadêmicas e profissionais. O debate intitulado “O Negro no Jornalismo Soteropolitano” reuniu jornalistas, professores e membros de instituições ligadas à atividade jornalística.

O evento acontece num momento em que o racismo volta a ser tema de discussão intensa, depois que o presidente Jair Bolsonaro declarou, em entrevista à RedeTV, que “no Brasil é uma coisa rara o racismo” (sic). Estudos da ONU revelam que a população negra é o alvo principal dos assassinatos no país em que a polícia arrastou o corpo de Claudia Ferreira; o Exército disparou 80 tiros contra o carro de uma família negra. O mesmo país onde o negro tem a menor escolaridade e salário, maior taxa de desemprego, menor acesso à saúde, é maioria no cárcere e quase não ocupa cargos eletivos ou posições de chefia nas empresas.

“A gente precisa sempre de algo a mais para oportunidades acontecerem e sermos notados. Para mim, foi muito difícil”, afirma o repórter Tiago Reis. Ele chegou na TV Bahia há 13 anos, para trabalhar como agente de viagens. Depois, passou a atuar como auxiliar administrativo dentro do setor de jornalismo da emissora. Um dia, um repórter lhe convidou a acompanhar uma matéria no Esporte Clube Bahia. “Foi quando a abelhinha do jornalismo me picou e eu decidi estudar. Desenvolvi a vontade de ser jornalista a partir do esporte”, conta. Começou o curso na F2J e até tinha colegas negros, mas na formatura… “Só eu. Muita gente ficou pelo caminho”, lamenta. “Aprendi todas as funções do jornalismo esportivo. Trabalhei na produção, na edição… Comecei a fazer reportagem numa oportunidade que caiu no meu colo”, brincou.

Perto da Copa das Confederações, um repórter de rede estava escalado para fazer o sorteio em Sauípe (Litoral Norte), mas ficou doente. “Só tinha eu. Fiz a matéria, outro repórter gravou”. Segundo ele, foi um longo caminho até aparecer no vídeo. “Demorou ainda mais”. Sempre que escrevia um texto para alguém gravar, Tiago fazia uma passagem e guardava como portfólio. “Claro que bate o desânimo, porque você está trabalhando muito, já fez tudo o que disseram que precisava ser feito e não acontece”, destacou. “Felizmente, o cenário está mudando. Não desistam. As pessoas estão notando que não faz sentido a maioria da população de Salvador ser negra e não encontrar essa representatividade na TV. A gente tem essa função de abrir caminhos para outros”, completou.

Representatividade

Em janeiro deste ano, o jornalista Vanderson Nascimento recebeu da TV Bahia um dos maiores desafios de sua carreira, ao realizar a cobertura do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho (MG). Direto da cidade, ele acompanhou o drama das famílias dos baianos que trabalhavam para a mineradora e estavam entre os desaparecidos registrados. “Na TV, já fiz de tudo. Faço polícia, política, serviço. É assim que a gente ocupa espaço. É assim que a gente luta para deixar de ser cota. Não basta estar lá para compor. A gente tem que mostrar que pode fazer de tudo”, defende.

Para o repórter, formado pelo Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge) e mestre em Comunicação pela Universidade de Coimbra, em Portugal, o racismo é uma construção social. Ele narrou alguns episódios em que se deparou com o preconceito. “Em uma cobertura, uma menina negra perguntou pelo repórter, mesmo vendo o microfone em minha mão. Ela parecia não acreditar e soltou ‘você não parece repórter’. A ideia do que era um repórter já estava enraizada nela. Por isso é importante discussões como essa”, avalia.

O jornalista destacou a relevância do evento, que recebeu apoio da Associação Bahiana de Imprensa. “É tão importante a ABI estar presente e mais atuante, participando da academia, da vida do jornalismo, se envolvendo nesses temas que são tão fundamentais, de reflexão com a gente”. Para ele, ainda há um longo caminho para desconstruir a estrutura racista que continua a afetar mentalidades. “A situação está longe de ser a ideal, mas nunca estivemos tão bem representados, apesar de sermos muito poucos. Temos Lise Oliveira, Rita Batista, Emanuele Pereira, Georgina Maynart. É pouco, muito pouco, mas é uma caminhada que a gente está fazendo com muito trabalho e orgulho”, disse.

Jornalistas negras

Decorridos 131 anos da Abolição da Escravidão, lembrada no último dia 13, às mulheres negras ainda é atribuído lugar de servidão, em postos de trabalho desprestigiados e com os menores salários. Tarsilla Alvarindo faz parte de um grupo que está mudando a cena. Repórter na Record TV Itapoan e apresentadora na TV Câmara Salvador, a jornalista formada pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM/UFBA) falou dos desafios encontrados já na graduação. “Hoje, eu fiquei tão feliz quando vi essa sala com tantos negros. O cenário é diferente na pública”, afirmou, registrando a predominância de estudantes negros na turma orientada pela professora Camila Botto. “Muitos que começaram comigo nem terminaram o curso. Precisamos começar a garantir que essas pessoas consigam se formar, para que o mercado tenha mais negros”, disse.

Tarsilla ponderou que fatores cumulativos de racismo contribuem para a inferiorização dos negros, como o fato de alguém ser pobre, mulher e homossexual, por exemplo. “Quando a gente se forma, precisa provar que é muito bom. Outras pessoas podem ser medianas, nós não. A gente precisa lutar contra o machismo e contra o racismo. Chega a ser cansativo”, admitiu.

A jornalista concluiu que o racismo no Brasil é estrutural e institucionalizado, e alertou para a falácia da democracia racial na sociedade brasileira, onde se nega a existência do racismo. “O mercado ainda não está pronto para se despir dos seus preconceitos. As pessoas ainda têm dúvidas se vão nos colocar. Eu fui chamada porque precisavam de uma repórter negra”, contou. “Nos últimos anos, a internet conseguiu trazer essas vozes. Colocar as mulheres negras. ‘Tia Má’ é prova disso. Maíra Azevedo já fazia um trabalho sensacional no jornal A Tarde, mas foi a internet que alavancou”, lembrou.

comentários

Artigo anteriorPróximo artigo