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“Letra preta”: Jornalista traça reflexão sobre o racismo nas redações brasileiras

“Letra preta: Os negros na imprensa brasileira”, ensaio publicado pela jornalista Yasmin Santos na edição de outubro da Revista Piauí, traça uma reflexão sobre o racismo nas redações brasileiras a partir da trajetória da autora: crescida no bairro da Paciência, na Zona Oeste carioca, começou a estudar jornalismo na Universidade Rural do Rio de Janeiro e terminou na UFRJ. Entrou como estagiária na revista piauí, onde hoje atua como repórter. O ensaio de Yasmin vai além do tema sobre o racismo: toca em pontos importantes relacionados à diversidade na imprensa brasileira.

O texto adota um ponto de vista crítico em relação à própria piauí. “São treze anos de boas histórias sobre o Brasil contadas majoritariamente por pessoas brancas. E, atualmente, a edição da revista está concentrada nas mãos de homens de meia-idade. A proposta de textos diversos e pautas pouco convencionais não era, afinal, tão inovadora”, escreve.

Yasmin trata o tema de forma complexa. Recorre aos dados de uma antiga pesquisa da revista Imprensa, publicada em 2001 – “Jornalismo no Brasil ainda é coisa de branco”, que ouviu 5 mil pessoas em redações de todo o Brasil. Apenas 1,6% das redações contavam, à época, com chefes negros. No seu trabalho de conclusão de curso, dedicado ao tema, Yasmin também ouviu 47 pessoas do meio impresso, mas se concentrando nos jornalistas negros. “Essa inversão valorosa eu aprendi durante as aulas da disciplina sobre intelectuais negras, ministrada por Giovana Xavier”, conta, lembrando que foi a única professora negra que teve na universidade.

O relato de Yasmin aponta para importantes reflexões. A primeira diz respeito ao reconhecimento do problema. Publishers e diretores de redação assumem a falta de diversidade, mas recorrem, por vezes, a argumentos sobre o contexto social mais amplo da sociedade brasileira – as universidades formam poucos jornalistas negros. Há também enquadramentos de cima para baixo que restringem o campo dos profissionais. “Reduzir jornalistas negros ao que chamo de ‘setoristas de negritude’ ou a wikipretos equivale a silenciá-los”, argumenta Yasmin. Entre os fatos positivos estão a pressão das redes sociais para transformações, o que se percebe nos próprios comentários críticos das edições de piauí. “Existe agora maior reivindicação por representatividade em produções artísticas, na produção do conhecimento acadêmico nos meios de comunicação.”

Há, ainda, um outro aspecto importante, que diz respeito à própria sustentabilidade da profissão. Yasmin recorre a exemplos do jornalismo americano. A Teen Vogue, publicação destinada ao público adolescente, tem, desde 2016, uma mulher negra como editora-chefe. Ela mudou o projeto editorial da revista, tratando de temas de questões sociais e políticas. O site da publicação mais do que dobrou os acessos em um ano, atingindo hoje 7,9 milhões de pessoas.

A elucidação sobre certo mal-entendido em relação ao conceito de lugar de fala é outra linha de força. A expressão diz respeito mais ao locus social do que sobre quem está ou não autorizado a falar sobre determinado assunto, lembra Yasmin. Esse ponto permite ampliar a discussão sobre diversidade, contemplando aspectos étnicos e territoriais, dando voz a sujeitos historicamente silenciados. É tanto uma questão da presença de maior representatividade étnica nas redações quanto da escolha dos assuntos e as formas de abordá-los. A tradição histórica de concentração de renda e de falta de acesso à cidadania de parcelas significativas da população está representada na tradição de uma imprensa pouco diversa e plural.

O ensaio de Yasmin se dá num contexto de esforços da grande imprensa para contemplar a prática de diversidade nas redações. Ela cita a recente criação da editoria de diversidade na Folha de S.Paulo. O cargo é ocupado por Paula Cesarino Costa. Maju Coutinho também assumiu há pouco a posição de âncora do Jornal Hoje, na Rede Globo. Esses esforços se dão em conjunto com importantes movimentos dos nativos digitais, que nasceram para ocupar espaços não contemplados pela grande mídia, tais como as agências Énois – que publicou recentemente uma pesquisa sobre diversidade nas redações -, Mural e Ponte Jornalismo, dentre outras.

As conquistas têm importante carga simbólica, mas precisam se tornar mais efetivas. Os manuais de redação, nos diz Yasmin, refletem pouco sobre a diversidade. “Qual é a abordagem e qual o uso responsável da linguagem em relação aos grupos minorizados?” O código de ética do jornalismo prevê que é dever do profissional se opor ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. As declarações racistas do candidato Bolsonaro nas últimas eleições – quando, por exemplo, compara as populações quilombolas a gado -, foram naturalizadas e não mereceram uma postura crítica na grande imprensa. O jornalismo falhou.

Yasmim termina seu relato com uma imagem de esperança durante a formatura na UFRJ. Antes da colação de grau, encontra no banheiro da universidade outras duas colegas negras, uma evolução em relação ao tempo do início do curso, quando se sentia diferente num ambiente marcado pela presença de estudantes brancos da Zona Sul. A epifania a ajudou a fazer a fazer da formatura um momento de reconhecimento do papel da universidade em sua vida e na da sociedade, mas o mesmo não se dá com a profissão escolhida. “Espero ainda o dia em que farei as pazes com o jornalismo e voltarei a olhá-lo com encantamento. Tenho pressa”, conclui Yasmin.

*Texto do jornalista Pedro Varoni, originalmente publicado nesta terça-feira (22/10/19), pelo Observatório da Imprensa

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