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Pela internet: jornalistas mostram com quantos cliques se faz um livro

“O jornalista como um poeta delicado, sempre acha o rascunho mais fiel do que o publicado”, na definição do poeta e também jornalista gaúcho Mário Quintana. A mão pesada de editores foi um dos impulsos para os jornalistas Antônio Nelson e Franciel Cruz buscarem nas ferramentas digitais a liberdade nem sempre possível nas redações tradicionais e editoras comerciais. Com temáticas e estilos bem diversos, os dois se lançaram em aventuras literárias pela internet por caminhos diferentes.

Para alcançar o público, além do processo industrial (produção gráfica) as obras literárias precisam chegar às livrarias espalhadas pelas cidades de todo o país e disputar a atenção de leitor com uma infinidade de outros impressos. Mas a internet está ao alcance de todos através de computadores, tablets e smartphones, e isso tem contribuído com o trabalho de escritores até bem pouco tempo invisíveis ao grande mercado editorial.

Antonio Nelson Lopes Pereira, 39, pernambucano de nascimento e jornalista formado na Bahia ainda inovou ao buscar a liberdade possibilitada pela rede. Além do formato digital, “A batalha dos blogueiros”, seu livro de estreia, é o primeiro eBook à venda no Brasil em bitcoin, a moeda digital. Estudioso das novas tecnologias desde a graduação, Antonio Nelson, acredita que o mundo digital possibilita novos modos de produção e disseminação do conhecimento em plataformas online. “Podemos vender nossa produção e ser um grão de areia nas barreiras de um livro físico, que exige ter muito nome no mercado e consequentemente conseguir uma boa editora. Tenho preferência pelo eBook e a nova geração está cada vez mais fazendo uso do livro digital, onde rompe fronteiras, tem a liberdade de criar, o jornalismo de memória, a economia criativa e outros atributos que o futuro do presente nos vem oferecendo.”

A ideia foi concebida durante um “momento difícil que o país enfrentava, durante o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff”, conta. “A Batalha dos Blogueiros nos traz diálogos exclusivos com Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha, Paulo Moreira Leite, Renato Rovai e Luis Nassif sobre a relação da grande mídia com os blogs e a influência de ambos nas últimas campanhas eleitorais além de outros temas”, explica  Nelson.

Embora desconhecido para muita gente, o processo de compras com bitcoin é fácil e seguro, assegura Antônio Nelson. “É como você comprar dólar numa casa de câmbio ou ações na bolsa de valores”, simplifica o autor. “Você faz um depósito num valor e passa a trocar, negociar esse bitcoin à preço de mercado”. Mas o leitor interessado pode comprar também através de depósito em conta e receber o eBook após o envio do comprovante de pagamento.

Animado com os resultados da sua primeira investida no jornalismo literário, o pernambucano já prepara os próximos lançamentos, agora na poesia. O segundo eBook, de poesias sensuais e erótica, sairá nos próximos três meses. Enquanto finaliza a edição, já está escrevendo a terceira obra, com poesias românticas.

Ingresia

O jornalista baiano Franciel Cruz, 48 anos, também procurou na Internet, uma outra alternativa para publicar seu primeiro livro: a pré-venda. Franciel já trabalhou no jornal Tribuna da Bahia e escreveu crônicas sobre esporte e para a Revista Muito, do Grupo A Tarde, mas vai estrear com “Ingresia”, incentivado por amigos-leitores de sua escrita genuinamente baiana nas redes sociais. Tudo começou no início dos anos 2000, quando ele começou a escrever textos para um grupo do qual participava e mandava para alguns amigos. “Nunca tive ideia de fazer livro, nunca tive pretensão no campo literário, livro está sendo uma surpresa”, conta Franciel, animado pelo sucesso da pré-venda animada via redes sociais. A impressão foi viabilizada com a arrecadação de quase 500 exemplares vendidos antes mesmo de mandar o material editado para a gráfica.

Assim como Antonio Nelson, Franciel também optou em fazer seu livro sem as interferências das editoras. “Eu não queria pitaco, queria de forma independente, para escrever sem interferências”, argumenta. “O editor normalmente indica, opina sobre ‘o que vende’, retira a linguagem, mas não ficaria eu, não seria o meu texto. Dizem que o papel do editor é separar o joio do trigo e publicar o joio”, e arremata no estilo escrachado que conquistou leitores na rede, para além dos amigos: “no meu caso, é tudo joio, mas é o joio que é a minha cara. Eu uso muita gíria falada na rua.”

“Ingresia” já dava nome a um blog criado há alguns anos pelo autor na linha da despretensão. O livro é uma coletânea de contos sobre a Bahia, com histórias do cotidiano, inventadas ou não. “Tem textos sobre política, alguns pretensiosamente culturais e futebol. Selecionei de acordo com os temas, para costurar o livro, para um texto dialogar com outro. Não dividi por capítulos, mas o fluxo divide bem”.

Os livros estão passando pelo processo de finalização do projeto gráfico, e devem ficar prontos até o final deste mês. Sobre as próximas obras ele não faz mistério. “O pessoal mandou eu escrever um livro de crônicas só de futebol. E para isso eu tenho muito material. Mas uma coisa de cada vez”.


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