ABI BAHIANA

Reportagem especial assinada por alunos da Unijorge inaugura coluna “FOCA na ABI”

A Associação Bahiana de Imprensa (ABI) estreia hoje (8) a coluna “FOCA na ABI”, um espaço dedicado à publicação de textos elaborados por jornalistas recém-formados e estudantes de Jornalismo. O trabalho selecionado para a inauguração foi uma reportagem especial sobre os impactos das notícias falsificadas, produzida pelos jovens jornalistas Francisco Artur Filho, Lívia Oliveira, Pedro Vilas Boas e Roberto Aguiar, formados pelo Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge).

A série é fruto do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que contou também com a monografia intitulada “As ações do jornalismo profissional no combate às fake news”. A produção acadêmica também poderá ser conferida neste site, dividida em três partes. A primeira seção (clique aqui) aborda o conceito, as origens e tipos de fake news. De leitura fácil e agradável, o texto apresenta uma reflexão, a partir de revisão bibliográfica especializada, sobre a emergência do fenômeno, recorrendo a diversos exemplos de notícias falsificadas e veiculadas pelos meios digitais no país. 

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Confira a primeira parte da série a seguir:

“Até hoje eu fico assim… receoso, entendeu? Até hoje, tomo remédio antidepressivo, senão não consigo dormir. E, até hoje, eu não absolvi tudo isso aí”. O relato, ilustrado pelo balanço impaciente das mãos, típico de quem está, nitidamente, nervoso, é a síntese do drama diário vivido pelo segurança de carros-fortes Fábio Novais*. Sentado na cadeira da lanchonete de um supermercado de Salvador, Fábio desvinculava-se da aparência de rapaz forte e seguro, ao passo que contava sua história à equipe de reportagem. O temor do homem de estatura média, 34 anos, remetia ao ano de 2015, quando a sua reputação foi difamada por uma desinformação circulada nas redes sociais e no aplicativo de mensagens WhatsApp.

O conteúdo enganoso consistia em uma montagem que relacionava a foto dele, extraída de sua rede social, com o criminoso responsável por sequestrar e estuprar uma médica de um grande hospital particular de Salvador. No caso, a funcionária foi sequestrada, no estacionamento privado em frente ao hospital, e estuprada, em um matagal. Fábio estava, no momento em que percebeu os sinais de que algo errado havia acontecido com ele, em operação de abastecimento de dinheiro em caixas eletrônicos de um shopping center, no centro da capital baiana. Foi nesse estabelecimento em que ele notou o olhar inquisidor das pessoas ao redor.

“Em plena operação, no meu trabalho, todo mundo apontando o dedo para mim. Eu não sabia o que estava acontecendo. Não era para estar na rua, naquele dia”, relatou o segurança, alegando que, provavelmente, já era do conhecimento da empresa a repercussão de sua foto, associada ao crime de estupro. Nesse dia, o trabalhador Fábio Novais, casado e pai de duas crianças, transformou-se, aos olhos da sociedade, em um sujeito abominável, estuprador de mulheres. Pelo menos foi essa a impressão tirada por ele, quando após o expediente, à noite, estava a caminho de casa. Essa concepção, segundo ele, tornou-se perturbadora porque, além do julgamento social ocorrido no shopping center, o segurança recebia diversas mensagens de ameaças em suas plataformas virtuais.

Ao chegar em casa, Fábio nem conversou com a esposa e os dois filhos. Ele logo contatou alguns amigos da empresa em que trabalha para relatar a situação. Imediatamente, os companheiros o orientaram a procurar alguma delegacia de polícia, a fim de relatar às autoridades de que estava sendo vítima da disseminação de um conteúdo enganoso, que o relacionava ao estuprador da funcionária do hospital. Assim, o segurança e os amigos decidiram apresentar o caso aos agentes do posto da Polícia Civil da Bahia (PC-BA),localizado na Praça da Piedade, centro da capital.

“O delegado me orientou a procurar um advogado para acionar o Ministério Público do Estado (MP-BA). E, sobre as ofensas e ameaças nas redes sociais, ele me disse para ignorar”, conta Fábio. No que se refere à procura de um defensor, a instrução do delegado da PC-BA estava correta. No entanto, segundo o advogado João Filipe de Sá, o segurança deveria ser encaminhado à Delegacia de Repressão a crimes Cibernéticos (DRCC), localizada no bairro dos Barris.

“Ele teria que fazer uma notícia-crime da publicação envolvendo seu nome e imagem. Com isso, seria instaurado um inquérito para investigar quem teve a autoria desse cartaz, por meio do rastreamento do protocolo de internet (IP)”, explica João Filipe. Em caso de avanço da apuração da DRCC, de acordo com o advogado, os investigadores do caso poderiam indiciar os suspeitos de criar e compartilhar o conteúdo enganoso relacionando a foto de Fábio com o estuprador da funcionária do hospital.

Julgamento social

Na justiça, até a concretização do chamado transito em julgado – quando acabam as possibilidades de o acusado recorrer de um processo, o cidadão goza da possibilidade de se defender em quatro instâncias judiciais. No julgamento social que Fábio sofreu, porém, não havia direito à defesa. O segurança gostaria de esclarecer o conteúdo enganoso, mas a sociedade não lhe deu ouvidos. “Até hoje eu sinto desespero. A pior coisa do mundo é ser julgado por uma coisa que você não fez. A pior coisa do mundo é não ter como se defender”, lamentou, às lágrimas.

Julgamento social não ofereceu direito de defesa à vítima – Foto: Reprodução

Os impactos do conteúdo enganoso na vida de Fábio geraram sequelas. Mesmo anos após a repercussão do caso, o segurança de carros-fortes continua desconfiado, com medo que pessoas da rua lembrem da sua imagem associada ao crime de estupro. Durante a entrevista, Fábio não conseguia pôr foco no olhar. Ele sempre alternava a visão, de um lado a outro, como se estivesse sofrendo perseguições.

A explicação para a desconfiança de Fábio perpassa pelo diagnóstico de estresse pós-traumático. Segundo o psicólogo Tom Valença, o segurança ainda não se recuperou do choque, causado pela deterioração de sua imagem. “No universo digital, a imagem é nosso cartão de visitas. Nesse cenário, de que valorizam-se mais o superficial que os argumentos, nada adiantaria o rapaz [Fábio] se explicar, pois a imagem dele já foi abalada”, explica o profissional.

Quanto aos motivos de se fabricarem conteúdos enganoso a fim de difamar alguém, Tom trabalha com a ideia de que há seres humanos dispostos a perseguir grupos ou pessoas. “Repare que, na história, a fofoca, ou conteúdo enganoso, era utilizada para rebaixar alguém. Hoje, esse tipo de informação tem o mesmo objetivo, porém com uma proporção maior que outrora”, argumenta o psicólogo, ao relacionar a disseminação de fake news com os mecanismos de compartilhamentos do ambiente virtual.

Na perspectiva de prevenir que conteúdos enganosos façam novas vítimas do julgamento social, o jornalista Rosental Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo das Américas na Universidade do Texas, acredita que, ao passo que a sociedade tem o poder de disseminar informações, isso deve ser feito com responsabilidade e, sobretudo, ética.

Fuja da desinformação

As conversas nas redes sociais em algum momento sempre chegam no dilema sobre a veracidade de uma publicação, seja ela em vídeo, texto ou foto. Os conteúdos coloridos, as manchetes sensacionalistas, as fotos ambíguas, dados exorbitantes e algumas expressões ao longo do texto são projetados para confirmar convicções, causar surpresa ou repulsa.

De acordo com Cristina Tardágula, diretora da agência checagem Lupa, o apelo às emoções é o maior perigo das fake news. “As pessoas tendem a compartilhar ou acreditar na veracidade de uma informação levando em consideração aquilo que previamente esperavam do assunto. Logo, o maior desafio atualmente é vencer as próprias crenças, gostos e desejos toda vez que consumir uma informação na internet, principalmente através do Whatsapp”, explicou.

Em contato com um conteúdo na internet, a pessoa precisa ter atenção aos mínimos detalhes. Título, subtítulo, foto, legenda da foto, layout e URL do site, período de publicação e se existe uma pessoa responsável pelas informações divulgadas precisam ser analisados.

Ao menor sinal de dúvida, evite o compartilhamento. Tai Nalon, diretora executiva e co-fundadora da agência de checagem aos fatos, lembrou que nós devemos ter responsabilidade digital. “O público também é produtor e disseminador de conteúdo. Então, da mesma maneira que jornais, revistas e sites têm seus protocolos para não compartilhar ou compartilhar informações, que eles verificaram serem verdadeiras, os indivíduos também precisam ter esse cuidado”.

O que analisar

Veja abaixo alguns formatos de conteúdos que podem gerar dúvidas e não devem ser compartilhados:
1. Título – Utilizar adjetivos, números exorbitantes e expressões ou termos esdrúxulos
2. Subtítulo – Informações que causam surpresa ou repulsa ou com informações que não condizem com o que foi prometido no título
3. Foto – Pessoas em situações ambíguas, membros ou objetos cortados na metade, presença de sombra ou efeito de iluminação que não aparecem comuns, se não achar a foto em outros ângulos ou veículos na busca inversa do Google ou se utilizar as ferramentas de um editor de imagem (nível de brilho e nitidez) e perceber que a figura é composta de uma colagem de várias partes
4. Legenda – Frases absurdas, chocantes, fora de contexto ou com informações não condizentes às prestadas no título
5. Vídeo – Tremidos, sem elementos que possibilitem identificar a localização e estiver com falas muito coladas ou interrompidas de forma abrupta.
6. Data da postagem – No local da data aparecer informação de atualização de conteúdo com ano distante do inicial ou for de muitos meses e anos atrás
7. Site – Não tem informação de contato, objetivo e valores
8. URL – Usar termos associados a movimentos políticos ou ativismos ou tiver nome semelhante ao de algum veículo conhecido

Fez todo o checklist? Você também pode pesquisar sobre o conteúdo no Google, para verificar se existem publicações semelhantes. Notícias de interesse público e grande repercussão dificilmente deixariam de ser publicadas em canais de comunicação tradicionais. Outra possibilidade é utilizar os canais de comunicação das agências de checagem de conteúdo – Lupa, Aos Fatos e Boatos.org – para tirar dúvidas. Faça um registro do conteúdo suspeito, envie para eles e questione se possuem alguma informação sobre o assunto.

Em caso de conteúdo suspeito ou enganoso nas redes sociais, você pode denunciar para a própria plataforma. No Facebook, por exemplo, já é possível classificar a postagem como “falsa”. É só clicar nos três pontinhos no lado direito da publicação.

*Nome Fictício

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Série completa

Parte 1 – VÍTIMA DA MENTIRA: De trabalhador a criminoso. O impacto das fake news

Parte 2 – CURA MILAGROSA: Tratamentos alternativos podem trazer consequências graves

Parte 3 – A LEI: Justiça Eleitoral em guerra indefinida contra as fake news

Parte 4 – CHECAGEM: Apuração basta? Saiba o que dizem pesquisadores e editores de veículos baianos

Parte 5 – RASTILHO DE PÓLVORA: Educação para mídia online

*Este texto é parte do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)/2018 apresentado ao Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge) pelos alunos Francisco Artur Filho, Lívia Oliveira, Pedro Vilas Boas e Roberto Aguiar.


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