Imprensa e História

Um gênio chamado Quintino

Por Antônio Matos*

Quintino de Carvalho, responsável pelo recrutamento do pessoal para trabalhar na ‘Tribuna da Bahia’ e seu primeiro redator-chefe, era um jornalista completo: texto perfeito, sensível, perspicaz, faro de repórter. De futebol, entretanto, nada sabia nem fazia a menor questão de aprender. Normalmente delegava para mim, como editor de esportes, a tarefa de redigir as chamadas, juntamente com os títulos, relativas à minha área e que mereciam destaque na capa do jornal.

Ao deixar a Tribuna’, de volta para casa, deixava o espaço, com os números de linhas (não se falava, na época, em caracteres) para o texto e os de toques parą o titulo. Já quando as chamadas viravam manchete do jornal, fazia questão dele mesmo dar o título em cima do material que eu elaborava.

No início dos anos 70, numa, noite de quarta-feira, o Bahia e aquele timaço do Cruzeiro, com Tostão, Piazza, Dirceu Lopes, Natal, Evaldo, dentre outras feras, jogavam na Fonte Nova, pelo Campeonato Brasileiro, e eu chego à Redação, vindo do estádio, por volta das 23h30. Ao me ver no corredor, mal saído do elevador, Quintino chama-me no aquário uma grande sala envidraçada, de frente para a rua Djalma Dutra, em que praticamente vivia e que abrigava, além de uma larga mesa, um sofá, onde descansava usando um dicionário como travesseiro, e duas poltronas e pede que, antes de fazer a chamada, Ihe contasse como foi a partida, ganha pelo Cruzeiro, se não me engano, por 2 x 0. Estranhei aquele comportamento, por não ser usual, e percebi que ele se apressava para ir embora. Imaginei que estivesse cansado ou com algum compromisso cedo, agendado para o dia seguinte.

Disse-lhe que, empurrado pela torcida, que enchera a Fonte Nova, o Bahia, como se diz hoje, teve uma maior posse de bola, que atuara com muita vontade e que, durante boa parte da competição, esmagou o adversário, que se defendia bem e parecia não se assustar com o futebol tricolor. “Sim, Nininho” – chamava-me pelo apelido “mas não foi o Cruzeiro que venceu?”, questionou-me. Eu então Ihe expliquei que a superioridade baiana era aparente, tinha pouca objetividade, pois a equipe finalizava mal ou errava o último passe. Afirmei também que o Cruzeiro, cheio de craques, tinha uma defesa sólida, um extraordinário quadrado no meio de campo e, com toques refinados, fora mortal nos contra-ataques, fazendo os gols que o Bahia não soube marcar. “Ok, ok, isto é suficiente”, falou, colocando uma lauda na máquina Olivetti e, arrumando-se para sair, sintetizou o jogo com esta fantástica manchete: ‘A ARTE VENCE O ENTUSIASMO’.

*Antônio Matos, jornalista, escritor, foi o primeiro editor de Esportes da ‘Tribuna da Bahia’. É diretor da ABI.

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