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80 anos depois do último suspiro de Arthur Arezio

Há 80 anos, em 16 de julho de 1940, falecia o gráfico, ilustrador , editor, escritor e empresário baiano Arthur Arezio da Fonseca (1873-1940), um dos fundadores e primeiro diretor industrial da Imprensa Oficial do Estado (IOE), fundada em 1915 pelo governador J.J. Seabra. Registro, pois, a data porque Arezio (vida e obra) foi tema da tese que defendi em 2000 na FFLCH/USP e que resultou no livro Nome para compor em caixa alta: ARTHUR AREZIO DA FONSECA (Salvador: EGBA, 2005). A relevância do personagem reclama celebrá-lo mais adiante quando, em 10 de junho de 2023, completarão os 150 anos da data do seu nascimento. Em 1873, ano em que nasceu, ainda havia um milhão e meio de africanos e afrodescendentes em condição de trabalho escravo no Brasil.

À esquerda, Arthur Arezio retrata Gutemberg com xilografia feita em pedaço de casca de cajazeira. À direita, impresso em gravura | Reprodução

Por causa do 80º aniversário da morte de Arezio, estive lendo trechos da tese do pesquisador Túlio Henrique Pereira – “Que coisa é essa, Yoyô? Cor e raça na imprensa ilustrada da Bahia (1897-1904)”, defendida na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em 2016. Ele é professor Adjunto do Departamento de História da Universidade Regional do Cariri (URCA), no Ceará, e leciona a cadeira de História Afro-Brasileira e Indígena. 

O pesquisador conversou comigo em 06 de maio de 2014, antes, portanto, da conclusão e defesa da tese em que ele utiliza o periódico baiano A Coisa como peça fundamental para alcançar os objetivos do seu trabalho. Por causa desse periódico que circulou entre 1897-1904, que corresponde ao recorte temporal do estudo, o pesquisador Túlio Henrique Pereira incluiu Arthur Arezio Fonseca entre os personagens estudados. Arezio foi colaborador, como cronista e ilustrador, do periódico.

A Coisa, n. 87, 23.04.1899

Ele mantinha a seção “Arthur, o bohemio” e exibia convincente sensualidade nos textos, a exemplo deste, publicado na página 03 da edição de 09jul1899, de que preservo o vocabulário, a grafia, a acentuação e a pontuação:

“O sagui

Nua, no seu leito, Dina adormecera embalada pelas ultimas palavras do seu amante, embriada pelos seus beijos sensuaes, sentindo ainda no corpo a lassidez que sobrevem do goso lento e ao tepito calor que deixa um corpo junto a outro corpo…

O dia estava em meio e de longe, de muito longe, trazia a brisa num murmurio confuso, o vozear da cidade; no seu quarto só Chiquinho, um travesso sagui, perturbava o silencio, ora saltando de movel em movel, ora brincando com os negros cabellos de Dina, que adormecia ainda embalada pelos effluvios dos ultimos beijos de seu amante…

De repente, Chiquinho quedou-se a contemplar Dina, assim nua, inteiramente nua!… e como no seu pequenino cerebro germinasse uma idéa, começou a passear, catando aqui e alli querendo arrancar os caros signaes que marchetavam seu moreno colo… Ela sentia uns arrepios de goso, acompanhados de estremecimentos… e quando o sagui, continuando o seu passeio, foi descendo, descendo, até que chegou a um certo ponto, Dina teve um ultimo espasmo e murmurou baixinho:

– Assim, meu bem, assim!”

O pesquisador também examinou a contribuição de Arthur Arezio na revista A Malagueta (1897-1898) – Esse periódico baiano do final do século XIX foi empreendimento editorial de Arezio. Nele, ele também escrevia e ilustrava.

A Malagueta, n. 8 e n.9

Ao contrário do professor Túlio Pereira, não foi a cor de Arthur Arezio que me chamou a atenção; foi o conjunto da obra, sobretudo os cinco livros que ele nos legou, dentre os quais o Diccionario de termos graphicos (Salvador: IOE, 1936), obra pioneira em idioma Português e que lhe valeu o Prêmio Caminhoá de 1938. 

Na página 10 do original de minha tese, exibo minha posição a respeito: 

“Evitei o quanto pude enxergar Arthur Arezio a partir de um ou outro aspecto de sua vida. Temi que o retrato se tornasse caricatura. Ele próprio tratou de afastar de si a identidade com a sua descendência africana. Não localizei nenhum texto dele a respeito do tema”. (…)

Creio, todavia, que o tema da Imprensa Negra se encaixe num debate sobre a contribuição  de afrodescendentes na nossa Imprensa e pretendo propor a ABI, tão logo as circunstâncias autorizem, evento e convidar os pesquisadores Túlio Pereira, Jaime Sodré, Cleidiana Ramos, Nelson Varón Cadena e eu próprio.

A obra dele caiu em domínio público há 10 anos e, desde então, a editora laboratório da ECA/USP tem empreendido novas e preciosas edições.

Dias melhores virão!

 

* Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É diretor da ABI.< [email protected]>

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