Notícias

Entre tudo, o nordeste: o fenômeno dos podcasts no Brasil e na Bahia

Crescimento do consumo do formato de mídia faz veículos, jornalistas e produtores investirem na criação de novos programas

Algumas pessoas ainda devem se perguntar “afinal, o que é um podcast?”. No entanto, em 2019, o consumo desse formato de mídia cresceu 67% no país, de acordo com uma pesquisa da Deezer, plataforma de serviços em streaming de áudio. Na época, o tocador divulgou com exclusividade à Tilt, um canal sobre tecnologia da Uol, dados da pesquisa realizada com usuários de podcasts entre serviços como o Spotify, Apple, Google Podcasts, além de aplicativos especializados na organização e distribuição. 

A Associação Bahiana de Imprensa (ABI), a fim de traçar uma conceituação sobre o que é um podcast, entender o processo de produção e as diferenças com relação aos programas de rádio como conhecemos hoje, conversou com veículos de notícias locais, produtores e estudantes de jornalismo que estão colecionando experiências na realização de podcasts seja dentro ou fora dos jornais.

Quando Clara Restallb, jornalista formada pela Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), ingressou no programa de trainees do Estadão, não imaginou que sua ida a São Paulo se tornaria vitalícia. Nascida na Chapada Diamantina, a jovem profissional hoje faz parte da produtora de podcasts Rádio Novelo e colabora com o Estadão. Tímida, quando era estudante de graduação, Clara revela ter visto na disciplina de rádio, lecionada por Maurício Tavares, uma oportunidade para se especializar num setor do jornalismo que não exige o esforço de se apresentar bem para as câmeras.

Dentro do programa de trainees, ela se destacou por um pequeno detalhe. Sabia mexer no software livre Audacity, considerado um dos mais simples programas utilizados para gravar, editar, importar e exportar diversos formatos de arquivos de áudio. Nele, é possível gravar músicas e paisagens sonoras.

A Rádio Novelo foi criada em 2019 no Rio de Janeiro e hoje é responsável pelo desenvolvimento de doze podcasts, entre eles o Foro de Teresina, Maria Vai Com as Outras, 451 MHz, e o Novo Normal do Spotify. Clara trabalha para a produtora em esquema home office e conta que sair do lugar onde mora a fim de angariar novas possibilidades de vida sempre foi comum para ela e sua família. “Eu nasci e cresci na Chapada Diamantina e eu fui morar em Salvador justamente porque não tinha mais escola na Chapada. A pública de lá era muito fraca, então minha mãe e minha avó (que são meus pais) resolveram ir para Salvador, para que eu e minha irmã terminássemos os estudos. Fico nessa migração justamente porque acabam as possibilidades num lugar e aí você tem que sair. Eu odeio isso, por mim estaria lá até hoje!”, brinca a jornalista, referindo-se à cidade natal. 

Depois do trainee, Restallb foi efetivada como repórter do O Estado de S. Paulo, e participou da fundação da editoria de podcasts do jornal. No Estadão, fez  parte ainda da equipe que criou o suplemento feminista Capitu e o projeto audiovisual Deixa Ela, premiado em segundo lugar no Troféu Mulher Imprensa 2020. Sobre a experiência com podcasts, ela garante o fato da disciplina de rádio ter sido importante para a carreira. “Queria muito me aprofundar em áudio e num jornalismo menos bairrista. Algo mais plural, que eu aprendesse e pudesse trabalhar em qualquer lugar do Brasil. Sou uma pessoa que não consegue falar em público sem passar mal. No quarto semestre, aprendi que se não estou sendo vista, consigo me sair muito bem”, explica Clara.

De acordo com Maurício Tavares, professor da disciplina de Rádio da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), os podcasts podem ser definidos como “programas gravados”. “A grande diferença é que uma das características do rádio é ser ao vivo (falo de rádio em sua essência), podcasts são sempre gravados. O rádio, de alguma forma, segue um modelo de programação”, define o professor. “No podcast você pode fazer qualquer coisa no áudio. Tanto no conteúdo quanto na apresentação, locução e etc”, acrescenta.

Maurício ainda explica a etimologia da palavra podcasts. “‘Pod’ significa ‘personal demand’, vem de Ipod, metade de pod, metade de cast (transmissão)”. O especialista defende o fato de podcasts não serem programas de rádio sob demanda como é frequente definido por alguns sites. “Embora alguns possam ser uma cópia editada dos programas de rádio, eles são arquivos de áudio. No começo eram acessados em um Feed RSS. Uma das características iniciais do podcast é que já eram episódicos mas as pessoas se inscreviam para receber atualizações”.

Uma pesquisa publicada no site da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação), define o formato RSS como “uma maneira de relacionar o conteúdo de um blog de forma que seja entendido pelos agregadores de conteúdo”. De acordo com Lucio Luiz e Pablo de Assiz, podcasters e autores do texto, isso é possibilitado através dos chamados ‘feeds’, “que trazem o conteúdo do blog codificado de maneira que esses programas compreendam e possam apresentar as atualizações automaticamente para os usuários que cadastraram o feed de seus blog preferidos”, explicam.

Conheça mais sobre aspectos técnicos do podcast na pesquisa “O Podcast no Brasil e no Mundo: um caminho para a distribuição de mídias digitais”. 

O primeiro podcast diário realizado por um jornal brasileiro é o Estadão Notícias, lançado em 2017. Em 2019, quando surgiu o Café da Manhã da Folha de S. Paulo em parceria com o Spotify, este se tornou o podcast jornalístico mais escutado do país, disputando o ranking da lista de dez podcasts mais escutados com outros gêneros como cultura, arte, negócios e educação. No mesmo ano do surgimento do Café da Manhã, o Ibope divulgou que 40% dos 120 milhões de internautas consomem podcast. O Spotify no mesmo ano, revelou o aumento do consumo de podcasts em  21% ao mês desde janeiro de 2018. 

Na Bahia…

O jornal Correio* se destaca pela produção que vem sendo realizada desde o início do contexto de pandemia. O podcast O Que A Bahia Quer Saber é diário e pensado exclusivamente para o formato. Embora o primeiro episódio tenha sido lançado em março de 2020, o projeto já era uma idéia do veículo desde 2019, conta Vitor Villar, repórter da editoria de esportes do jornal há três anos. “Assumi o podcast em junho de 2020, em meio ao home office. Trabalho com podcast há seis anos, geralmente com trabalhos independentes, como o Podcast 45 Minutos”, conta. “No Correio*, fizemos o Bate-Pronto Podcast, que era semanal e sobre futebol, o que, creio, me credenciou a assumir o O Que a Bahia Quer Saber”, acrescenta o jornalista. 

Em termos de recepção, o jornal ainda vem alçando seu espaço no setor. Para alcançar mais ouvintes, houve uma mudança recente na produção dos episódios, dando maior ênfase para grandes reportagens, reportagens investigativas, dentre outros gêneros jornalísticos exclusivos para o O Que a Bahia Quer Saber. O episódio mais escutado segundo Vitor é o “O intrigante caso de Gandu”, lançado no dia 1 de julho. Com reportagem assinada pelo editor, o ‘ep’ narra o caso da cidade que tinha apenas 40 infectados pelo coronavírus e, um mês depois, já tinha alcançado a marca de mais de 650 pessoas. (Veja aqui)

A divulgação do O Que a Bahia Saber apesar de básica, é estratégica. “É similar ao das matérias. É o primeiro conteúdo a entrar no site, o primeiro ‘push’ no celular que a galera recebe. É também o primeiro destaque do site, fica no ar a manhã toda”, explica Villar. Antes da pandemia, o veículo pretendia investir em outros podcasts a partir das colunas que são bem recebidas pelos leitores, como o ‘Baianidades’ e as colunas do Marrom. “Vamos continuar investindo. Tanto que mesmo nesse sentido de home office a gente continuou tocando. Pelo menos é isso que meus superiores me passam”, explica Vitor. “A gente sabe que esse é um formato campeão. Tem muito público, geralmente um público diferente do site, um pessoal que não lê tanto a notícia impressa porque passa o dia todo trabalhando”.

O Bahia Notícias, um dos sites mais acessados do estado, tem o podcast Terceiro Turno como carro-chefe. De acordo com o veículo, o podcast é “um bate-papo sobre a política baiana, de forma leve e simples”. Apresentado por Lucas Arraz, Jade Coelho e Ailma Teixeira, os hosters/podcasters, como costumam ser chamados os apresentadores de programas de podcast, realizam “um resumo das informações da semana e discutem o que será notícia nos próximos dias”. 

Além do Terceiro Turno, no início do Campeonato baiano, quando não era prevista a pandemia por causa do novo coronavírus, o BN ainda lançou o A Dupla é Minha, um guia do Campeonato em formato de podcast, apresentado por Nuno Krause e Gabriel Rios. Nuno começou no BN como estagiário da Rádio RBN digital e foi efetivado no início de 2020. A ideia do A Dupla é Minha veio do próprio estudante de jornalismo da Facom. “Como são 10 times na primeira divisão, decidi fazer 10 episódios. Apresentei a ideia para Gabriel e ele gostou bastante. Depois apresentamos ao nosso chefe, Fernando Duarte”, relata Nuno. O projeto foi aprovado rapidamente pelo sócio-diretor Ricardo Luzbel e teve primeiro episódio publicado nas plataformas de streaming em janeiro.

Além da notícia

Outro destaque na produção local são os podcasts produzidos por jornalistas e estudantes de jornalismo, produção ou artes. Embora estes não tenham como gênero de entrada a notícia, contribuem e representam o dinamismo dos podcasts. “O mais legal do podcast é que qualquer um pode fazer a partir do seu próprio celular, não precisa ir a um estúdio bacana”, defende Maurício. Um podcast profissional é interessante que seja feito com bons microfones, mas existem bons podcasts feitos com celular e essa é a principal qualidade deles”, relata o professor.

Tavares ainda cita sobre o mais conhecido “hospedeiro de podcasts” do país, o Anchor, uma plataforma gratuita para criação de podcasts que contém ferramentas para os usuários de gravação e edição de áudio, além ser uma espécie de estúdio de organização para publicação de episódios que podem ser agendados e são automaticamente distribuídos para tocadores/agregadores como Spotify e outros. Além dessas funcionalidades, o Anchor possibilita acompanhar a estimativa de público com informações específicas de geolocalização, gênero e outros.

O Pele Preta é um desses podcasts cuja notícia não é tema anfitrião, a especialidade do programa são as relações raciais em Salvador. O programa é apresentado por Rafael Santana, repórter do GloboEsporte.com e idealizador da plataforma AfroJob, quadro do Jornal da Manhã (TV Bahia), e Fran Cardoso, idealizadora do projeto “Empodera Pretxs” – direcionado para Escolas de ensino fundamental e médio. Assim como Maurício, Rafael defende a ideia dos podcasts serem diferentes das rádios, mesmo sendo difícil definir o fenômeno dos podcasts no Brasil. “O que parece ser uma diferença fundamental em relação ao rádio é a democratização do processo de produção, bem como a praticidade de se ouvir quando quiser e onde bem entender”, diz o jornalista. 

O podcast Pele Preta é gravado em uma empresa de comunicação de um dos membros da equipe de produção. “Francis escrevia textos no Instagram sobre a vivência dela enquanto mulher negra, textos excelentes. Em 2019, a equipe que compõe o projeto se reuniu para pensar em como dar amplitude aos textos, de modo que surgiu a ideia de realizar um podcast, e logo o projeto ganhou uma cara multimídia, também com produções de vídeos nas redes”, relata Rafael. “Nossa estreia oficial aconteceu em novembro do mesmo ano, no mês da consciência negra, com a publicação da primeira temporada, com quatro episódios”.

Outra iniciativa soteropolitana nesse sentido chama a atenção. Lucas Lyrio é estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes em concentração na área de Cinema do Instituto de Humanidades, Artes e Ciência (IHAC) e da Faculdade de Comunicação da UFBA, produtor e editor de podcasts, criador da produtora Barra3 Podcasts. A iniciativa da empresa surgiu há dois anos com uma inquietação em criar um conteúdo novo no nordeste brasileiro. “Eu ouço podcasts há muitos anos e acredito que falta mais representatividade nordestina na cena do podcast nacional, então, criei o podcast Se Assunte junto com Hisan Silva, criador da marca Dendezeiro, com o intuito de dizer que o nordeste merece e pode falar, criar, pensar”, explica Lucas. “Logo depois, decidi criar a produtora para trazer mais programas e ideias, tornando-as reais”, conta. 

A Barra3 Podcasts funciona em endereço fixo em Salvador, com um estúdio onde recebe os apresentadores. De acordo com Lucas, há também  a possibilidade de gravar in loco, no lugar que o contratante desejar. No contexto de pandemia, as gravações estão ocorrendo via chamada de áudio. “O podcast é uma mídia em ascensão no Brasil, a audiência tem aumentado exponencialmente e trazer isso para o nordeste é fortalecer nossa cultura e levantar nossa força junto com o Brasil inteiro, não simplesmente deixar a ‘onda’ chegar depois”, defende o empresário.

“Efeito corona”

Por causa da pandemia, o podcast Pele Preta atrasou o processo de produção. Rafael relata o fato de a essa altura do ano, em outro contexto, o programa  já teria estreado a terceira temporada. Enquanto o “novo normal” não chega,  foram publicados alguns episódios especiais de quarentena, guardado o distanciamento social, cada um em sua casa. Mesmo com a instabilidade no momento, o apresentador se mostra otimista. “Acredito que foi importante para firmar nossa atuação no Instagram, com as lives que Francis vem fazendo e a produção de materiais específicos para as redes sociais”.

Quanto ao A Dupla é Minha, podcast do Bahia Notícias, quando começaram as medidas de restrição, os apresentadores Nuno Krause e Gabriel Rios começaram a trabalhar em sistema home office. O campeonato foi adiado e, assim, os episódios também deixaram de ser gravados. “Sem jogos, não tinha muito assunto para falar. Agora que os jogos estão voltando, os assuntos naturalmente devem surgir e pretendemos voltar na próxima semana. Eu investi em um microfone para trabalhar de casa e Gabriel está querendo fazer o mesmo”, conta Nuno. 

O Correio* também foi afetado com a lógica de pandemia. Vitor Villar desde junho assumiu de casa o podcast e conta com a ajuda do estagiário de jornalismo Vitor Zarfush. Toda segunda, pautas exclusivas são definidas para o podcast e nos outros dias, o O Que a Bahia Quer Saber acompanha a redação para trazer um novo olhar que é dado aos textos por meio da narração.

“O podcast justamente por ser por áudio, as pessoas conseguem ser mais convincentes, mais claras”, afirma Vitor. Segundo o editor, o podcast tem uma linguagem muito mais persuasiva do que a escrita em um site ou num jornal impresso. “Por exemplo, um cientista explicando um fenômeno dessa pandemia, é muito mais didático se ele consegue falar por áudio. Ou uma psicóloga, dando orientações para combater a ansiedade na pandemia, é muito mais convincente você falar por áudio do que escrever uma matéria sobre isso”, defende. 

Clara Restallb ainda acresce formatos que vão além da democratização da produção de conteúdo e se voltam para populações invisibilizadas, como é o caso do podcast Copiô, Parente, um boletim do Instituto Socioambiental (ISA) onde semanalmente, uma notícia de Brasília que interessa aos índios e povos da floresta é narrada. Os episódios do Copiô, além de estarem nas plataformas de streaming, também são enviados aos grupos de WhatsApp em aldeias para populações indígenas e de regiões quilombolas. 

Para conhecer todos os podcasts trazidos nesta reportagem acesse a “PodPlay”, uma playlist criada pela ABI com episódios relevantes dos programas criados, produzidos ou apresentados pelas pessoas citadas no texto e outras indicações. 

*Estagiária da ABI sob a supervisão de Joseanne Guedes.

comentários

Artigo anteriorPróximo artigo