Literatura

Quando a tarde fecha a cintilante umbela

Artigo de Florisvaldo Mattos em homenagem ao jornalista e amigo Olympio de Azevedo, falecido nesta sexta-feira (10)

Entardeci hoje defrontando-me com a triste notícia de despedida de um amigo, ex-aluno na Faculdade de Comunicação da UFBA, companheiro na Sucursal do Jornal do Brasil e de lides muitas a que o jornalismo conduz, Carlos Olympio de Azevedo. Foi-se um varão que sempre se apresentou, não apenas como exemplo de afeto, fraternidade, consideração e amizade sincera, para com todos que o merecessem, mas também como um criador literário, que a todos acaba de surpreender, ao deixar em plena operação gráfica um livro que reúne múltiplas criações de sua lavra, concebidas na forma de poemas ou de escritos em prosa, como contos ou crônicas de íntimo sentir, cujo conteúdo me encaminharam pessoas da família, como expressão de vontade de quem os criou. Li-os e, ao final, percebi o quanto se dissemina pelos espaços da literatura o número de criadores, não anônimos, mas secretos, sejam poetas ou prosadores. E o agora saudoso Olympio de Azevedo pode ser considerado um dos que indubitavelmente se inscrevem nos verbetes dessa estirpe.

Vencendo as tristezas que esse momento de mim se apossa, sinto-me impelido por um surto de consciência aliada a um dever de fraternidade, transcrevendo um dos poemas de Olympio de Azevedo do conjunto de inéditos encaminhados para publicação, na forma própria, sem pontuação, revestido de aura telúrica e vivências rurais. Vai abaixo.

Que Júpiter o acolha e o tenha na sua glória eterna!

 PEDRA VIVA

(Olympio de Azevedo)

 Meu mundo de trilhas e estradas largas
Paisagem sonhada no verde nu do azul
Chão de barro seco, por vezes molhado
Do movimento do vento vem a harmonia
O sol queimadeiro na quentura do vale
Vale a luminosidade e os cálcios da vida
Rios que banham a terra matam a sede
Alimentam esperança, constroem os sonhos
A lida diária faz esquecer o áspero amor
Perdido nas entranhas do asfalto negro
O corpo cansado de uma alma aquecida
No silêncio da história inerte das pedras
Amor não cabe na distância que se perde
Lembrança mede a doce saudade partida
Sou vidro, espelho adormecido sem olhar

________

*Florisvaldo Mattos é professor, jornalista, poeta, diretor da ABI e membro da Academia de Letras da Bahia.

[email protected]

comentários

Artigo anteriorPróximo artigo